Visocriativa

Porque não conseguimos ser felizes?

Durante muito anos vivi com uma dor que me corroia a alma e que por vezes ainda me corroi. Há quem lhe chame personalidade depressiva. Tendência para a depressão. Eu gosto de lhe chamar o que Eckart Tole denomina de corpo de dor. O meu corpo de dor esteve sempre personificado nas vozes da minha mente. A minha mente parecia uma autoestrada de ideias de passado, do futuro. Daquilo que aconteceu, daquilo que estava para acontecer. Claro que no meio dessa tempestade ciclónica de ideias jamais me conseguia definir. Quando buscava um objetivo lá vinham as vozes dizer o que eu era capaz ou do que não era capaz. Criei personagens como o “Diabinho”. Esse rabudo, bem lá do alto bradava aos céus argumentos limitantes ou ostigantes por ser tão passivo. Por outro lado, o tipo mais sereno suspirava a compaixão pelo meu ser e puxava pelo melhor e mais motivante força em mim…Outra vezes, nas alturas que eu deveria ser mais comedido, lá surgia o chifrudo que me instigava a ser mais arrasador…No meio desse turbilhão perdia-me na imensidão de objetivos não atingidos, metas inacabadas…Todavia, mesmo quando atingia os objetivos a sensação de vazio mantinha-se. Manteve-se quando me casei. Quando tive os meus filhos perfeitos e enquanto tive a familia perfeita. Aconteceu quando comprei o carro dos meus sonhos, quando comprei a minha casa ideal, quando tirei a carta de mota, quando tirei a carta de patrão local, quando plantei una árvore, quando publiquei um livro. Aconteceu quando era um dos melhores profissionais na minha área…Entretanto na busca incessante por algo que preenchesse a minha lacuna, o meu pai, o meu melhor amigo morreu. A familia perfeita ficou desfeita. Criei uma relação extraconjugal porque buscava algo fora da relação. Troquei a cumplicidade por intimidade e continuei insatisfeito. O meu casamento acabou arruinado pelas investidas do meu Ego. Mas mesmo assim continuei a procurar. Procurei no sexo, num novo amor, na espiritualidade, no desporto e continuei a procurar…
O que é preciso para ser feliz?
Será que te consegues identificar com esta pergunta?
Perguntei-me várias vezes e não surgiram respostas…

Até que um dia de Março, num final da tarde, na praia de são joão, na costa da caparica, deparei comigo abandonado e sentado na areias da praia, ouvindo o quebrar das ondas. Entre as angustias da culpa, do auto flagelamento psicológico, do martirio dos porquês, estourei num pranto de chouro. Acho que perdi a noção de tempo e de espaço durante alguns momentos. Pedi perdão aos céus por tanta ingratidão e por tamanho sentimento de inconformismo..Como é que eu podia ser tão ingrato? Chorei, chorei e chorei até não poder mais…
Senti um calor indescritivel dentro de mim, uma dormência de paz como que um abraço divino. Depois daquele pranto senti o calor do amor incondicional…algo que este escritor não consegue traduzir em palavras. Como que um limbo de subtil quietitude que se apoderou do meu ser. Acho que morri ali mesmo…De súbito olhei para os céus com os olhos meio que aguados da choridão…e um aglomerado de nuvens, desenhando um rosto que parecia o de Jesus sorriu para mim….Claro que a minha mente racional procurou criar todo o tipo de argumentação lógica para explicar aquela minha visão. Mas o que importa se o que vi foi real ou não? Na verdade a paz que senti foi indescritivel. Foi algo que só posso explicar como nascer de novo…sem preconceitos, sem juizos de valor para com os outros, mas acima de tudo com uma compaixão por mim como nunca antes tinha sentido. Nesse dia percebi que para seguir em frente tinha que fazer o que sempre fiz pelos outros. Procurei ter compaixão por mim mesmo. Procurei o amor incondicional em mim. Procurei perdoar-me por todos os falhanços que antes tinha cometido…Entendi que no presente momento já nada poderia fazer pelo passado. Que a única forma de corrigir o passado era Ser um Melhor Presente. Ser melhor no agora. E percebi que esse é o nosso maior erro. O de nos culparmos porque não conseguimos perdoar os outros, ou na pior das hipóteses, de nos culparmos pelo mal que fizemos aos outros. Em qualquer situação a felicidade está em aceitarmos o presente. Está em vivermos o momento. Está em querermos evoluir no agora para sermos melhores pessoas no futuro. Os erros servem apenas para nos ensinar a sermos melhores seres humanos. Não podemos corrigir os erros do passado. Temos que viver com eles. Temos que aprender com eles para que usemos esse sofrimento como uma alavanca de otimização, de evolução, de crescimento de possibilidades. Não pode haver evolução sem sofrimento…Talvez a felicidade não seja mais do que a particularidade de evoluirmos com os nossos erros e estarmos cientes que estamos a dar o nosso melhor rumo a um maior despertar de consciência.
O que é preciso para ser feliz?
Aceitarmos que somos humanos. Que não somos perfeitos. Que podemos melhorar. Que não estamos separados da humanidade. Que somos todos um só…Que não há mais nada para fazer do que Sermos o que estamos a fazer, no agora, no estado presente. Por isso digo que a felicidade é um instante que vale por si mesmo…A felicidade é o caminho e não o destino. A felicidade está sempre conetada ao que Somos enquanto fazemos o que estamos a fazer, neste preciso instante…A felicidade está intriseca com o amor incondicional por nós mesmos e pelo próximo…e é essa a verdadeira causa do livre arbitrio e a maior orquestra de Deus…Obrigado

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *